Imprensa

30-Jan-2017 11:34
Saúde

Condições do hospital Vera Cruz são precárias, dizem funcionários

Hospital, Vera Cruz, Sorocaba,
Foto: Fábio Rogério / Jornal Cruzeiro do Sul
Médicos e funcionários do Hospital Vera Cruz, do Caps Arte do Encontro e residências terapêuticas, que são administradas pela Associação Paulista de Gestão Pública (APGP), entidade que presta serviço para a Prefeitura de Sorocaba, denunciaram a precariedade do atendimento de pacientes de saúde mental do município. Entre as situações elencadas estão: a defasagem no número de psiquiatras e de outros profissionais na área da saúde, a carência de alimentação adequada para os pacientes, a ausência de medicamentos de uso contínuo na rede pública de saúde e a falta de veículos para o encaminhamento de pacientes para o atendimento de outras especialidades no município.

Os médicos, que já atuaram e atuam ainda na saúde mental, informaram que o Hospital Vera Cruz, que é gerido pela Associação Paulista de Gestão Pública (APGP), não cumpre a portaria do Ministério da Saúde e nem as diretrizes do Conselho Federal de Medicina. De acordo com eles, o número de funcionários é insuficiente, não existe no local um serviço de nutrição e falta também roupa de cama para os pacientes. Um dos psiquiatras ouvido afirmou que muitos pacientes, em virtude de problemas de saúde, como por exemplo a diabetes, teriam que ter uma alimentação diferenciada. "A alimentação é inadequada, deveria existir a nutricionista."

Sem integração

Outro psiquiatra afirmou que não existe integração dos pacientes do Vera Cruz com a rede pública de saúde. De acordo com o informado, vários pacientes precisam do suporte ambulatorial de outras especialidades, como cardiologia, endocrinologia e nefrologia e que falta veículos para encaminhá-los até às unidades de saúde do município. Como exemplo, eles citaram que houve o agendamento de exames de mamografia de pacientes do Vera Cruz, com idade acima dos 50 anos. Entretanto, os exames acabaram não sendo realizados, já que não tinha veículos para transportá-los.

Além do Vera Cruz, os profissionais citaram a situação do Caps Arte do Encontro, também gerido pela APGP e que atende os pacientes com casos mais graves. Eles informaram que a unidade é a retaguarda do atendimento do Vera Cruz e importante no processo de desospitalização. De acordo com eles, o número de psiquiatra é insuficiente para atender à demanda, que atualmente é de aproximadamente 1,2 mil pacientes ativos. "Muitas vezes, o paciente somente pega a receita e vai embora, já que só tem um psiquiatra."

Desospitalização

Segundo os médicos, toda a situação vem também prejudicando o processo de desospitalização, tendo em vista que os pacientes entregues aos familiares não encontram assistência adequada fora das unidades hospitalares. Um dos problemas que os pacientes encontram é justamente a falta da medicação de uso contínuo e de alto custo na rede básica de saúde do município.

Atualmente, está em falta a fluoxetina (antidepressivo) e já esteve ausente também por um período o antipsicótico mais usado, o haldol. "Essa falta de atenção na rede faz aumentar o número de pedintes na cidade, já que essas pessoas acabam na rua. Inclusive, pacientes que não tinham problemas de droga, acabam tendo contato com usuários."

Já nas residências terapêuticas o problema é no tocante à alimentação, já que devido à falta de verba, os pacientes precisam utilizar seu benefício assistencial à pessoa com deficiência do INSS, chamado de Loas, para garantir o sustento da unidade.

Vereadores

Anteontem, após denúncias de falta de pagamento de funcionários, os vereadores Hélio Brasileiro e Hudson Pessini, ambos do PMDB, estiveram estiveram no Vera Cruz.

A APGP foi procurada e não encaminhou resposta até o fechamento da edição.


Crespo promete mudanças para corrigir "distorções" no hospital

A Secretaria da Saúde, na gestão do prefeito José Crespo (DEM), afirmou que herdou um modelo de gestão de Saúde Mental da administração anterior, do ex-prefeito Antonio Carlos Pannunzio (PSDB) e que será necessário efetuar mudanças para obter melhoria de atendimento no setor. De acordo com a nota da Prefeitura de Sorocaba, o atual modelo se mostrou inviável e houve a necessidade de substituição da coordenação geral de Saúde Mental, justamente para iniciar o processo de mudança.

A Secretaria da Saúde informou ainda que está levantando todas as informações do Hospital Vera Cruz, bem como constatando todos os problemas citados, como de alimentação inadequada e serviço de nutrição, além da falta de material, roupa e medicamentos.

A nota diz ainda que os contratos passam atualmente por verificação, justamente para analisar se estão estabelecidos da forma correta e sendo cumpridos. A Secretaria acrescentou que gestões já estão sendo feitas para restabelecer, da forma mais breve possível, os cuidados e o bom tratamento necessário aos pacientes, além ainda das condições de trabalho adequadas dos profissionais.

Sobre a falta de funcionários, a nota da Secretaria da Saúde diz que este é um problema que ocorre desde a inauguração dos Caps. Segundo a gestão atual, existe um equívoco básico na formação das equipes, que tiveram origem no governo anterior, já que não foi exigido a presença de, pelo menos, um psiquiatra durante todo o tempo de funcionamento destas unidades. "Ditas especializadas, mas sem os médicos especialistas... gestões estão sendo feitas para garantir o atendimento e o tratamento necessário aos pacientes e, de acordo com a vocação de cada serviço, inclusive no que se refere à composição das equipes. O governo do prefeito José Crespo vai corrigir as distorções impostas pela má gestão anterior." A nota diz ainda que a Secretaria da Saúde vai se reunir em breve com a APGP.

Já em relação aos medicamentos, a Secretaria da Saúde afirmou que a cesta básica de medicamentos da Saúde Mental está disponível na farmácia da Policlínica Municipal e atualmente consta com apenas um item faltante, cuja compra não foi efetuada ao seu tempo no final do ano passado pela administração anterior. A nota diz que os medicamentos de alto custo são fornecidos pelo Estado na Farmácia de Componente Especializado, localizada no Hospital Leonor Mendes de Barros.

Custo

A Prefeitura de Sorocaba informou que o valor repassado mensalmente ao Caps Arte do Encontro, com gestão da APGP, é de R$ 183,3 mil. Em relação ao núcleo do Hospital Vera Cruz, o repasse é individualizado por paciente/dia e o último repasse foi no valor de R$ 903 mil. A nova coordenadora geral de Saúde Mental, que assumiu na gestão Crespo, é Fernanda Biudes Consul. Ela entrou no lugar de Mirsa Elisabeth Derllosi.

A gestão do ex-prefeito Antonio Carlos Pannunzio afirmou que não tem mais nada a dizer e que tudo já foi falado no dia da transmissão.

Wilson Gonçalves Júnior / Jornal Cruzeiro do Sul
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